Durante muito tempo, gerenciar risco em obra significou olhar para o que se vê: altura, ruído, carga suspensa, espaço confinado. Desde 26 de maio de 2026, isso mudou oficialmente. Os fatores de risco psicossociais passaram a integrar de forma obrigatória o Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR, e a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego sobre esse ponto deixou de ser orientativa e passou a ser punitiva.
Na prática, sobrecarga de trabalho, assédio moral, metas excessivas e falta de clareza de função agora precisam ser identificados, avaliados e controlados com o mesmo rigor aplicado a um risco químico ou a um risco de queda.
O que exatamente mudou na NR-1
A NR-1 é a norma que estrutura como todas as demais normas regulamentadoras se organizam. Ela define o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO, do qual o PGR é o instrumento central.
A alteração veio pela Portaria MTE nº 1.419, de agosto de 2024, que incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no capítulo 1.5 da norma. A Portaria MTE nº 765, de maio de 2025, estabeleceu um período educativo de um ano, encerrado em 26 de maio de 2026.
Desde então, empresas cujo PGR não contemple esses fatores estão sujeitas a autuação. O Ministério do Trabalho orienta ainda que a gestão dos riscos psicossociais seja feita em conjunto com a NR-17, que trata de ergonomia.
O que são, na prática, os riscos psicossociais
O termo soa abstrato, mas o conteúdo é concreto. A norma passou a reconhecer como risco ocupacional fatores como sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por metas, jornadas mal geridas, falta de clareza sobre responsabilidades, ausência de apoio da liderança e assédio moral.
Saúde mental entra nesse pacote não como tema paralelo, mas como consequência direta desses fatores quando não são geridos. Um colaborador exposto por tempo prolongado a pressão desorganizada ou a assédio tende a apresentar mais erro de execução, mais afastamento e mais rotatividade. Do ponto de vista técnico, isso é risco tanto quanto um andaime mal montado.
Por que isso importa especialmente na construção
Obra industrial trabalha com prazo, sequenciamento e interdependência entre frentes. Um atraso na fundação comprime a montagem da estrutura, que comprime a cobertura, que comprime o acabamento. Essa cadeia gera pressão real sobre as equipes.
E pressão sustentada não é apenas uma questão de bem-estar. Uma equipe sobrecarregada, cansada ou insegura sobre a própria função comete mais erros de execução. Em um canteiro, erro de execução é a antessala do acidente.
É por isso que tratar risco psicossocial como parte da segurança não é uma concessão ao discurso do momento. É reconhecer aquilo que qualquer encarregado experiente já sabia: equipe que trabalha sob pressão desorganizada trabalha pior e mais perigosamente.
Como a Century está aplicando
A adequação à nova NR-1 na Century vem sendo conduzida em duas frentes simultâneas, escritório e canteiro, porque a norma não distingue entre ambientes administrativos e operacionais.
No escritório, a revisão alcança as equipes técnicas e administrativas, incluindo projetos, suprimentos, planejamento e áreas de apoio.
Nas obras, o tema tem sido levado diretamente às frentes de trabalho por meio dos DDS conduzidos pela equipe de Segurança do Trabalho, no mesmo formato já utilizado em outras campanhas de saúde ao longo do ano. A abordagem é de conversa, não de aula: o objetivo é que o colaborador entenda o que é um risco psicossocial e saiba a quem recorrer quando algo estiver pesado demais.
A abrangência inclui terceiros e parceiros. Um canteiro é um ambiente compartilhado, e a gestão de riscos precisa alcançar todos que atuam nele. Empresas contratadas e prestadores de serviço são incluídos nas ações de conscientização e nos procedimentos de comunicação de riscos, conforme previsto pela própria norma.
Um canal para quem precisar falar
Identificar risco psicossocial só tem efeito se existir um caminho seguro para reportar o que está acontecendo, principalmente em casos de assédio moral, onde o colaborador muitas vezes evita o relato direto ao superior.
Por isso, o escritório da Century conta com um canal de denúncia próprio, acessível por QR Code disponível nos murais internos e nas áreas comuns. O canal permite relatar situações de sobrecarga, assédio ou qualquer outro fator de risco psicossocial de forma direta, e o mesmo acesso está sendo levado às obras como parte da adequação em andamento.

Segurança que não se vê
A Century mantém certificação ISO 9001 e ISO 14001, e a gestão de saúde e segurança sempre foi tratada como parte do sistema, não como anexo. A inclusão dos fatores psicossociais no PGR se encaixa nessa mesma lógica: mais um risco mapeado, avaliado e controlado dentro de um processo já estabelecido.
Trabalhamos todos os dias para que cada colaborador volte para casa em segurança. A norma agora reconhece o que a prática já indicava: segurança também se constrói no modo como o trabalho é organizado.
Construímos crescimento, superamos expectativas.